VOGUE BRASIL

Madonna : diretor artístico revela detalhes da arte do show

  • Vogue conversou com exclusividade com o ucraniano Sasha Kasiuha, responsável pela criação dos conteúdos visuais da Celebration Tour de Madonna, que entrega detalhes da produção

    Por Vinícius Guidini

    O que levou Madonna, no auge dos 40 anos de carreira, a abrir seu coração para um jovem ucraniano? A resposta pode parecer simples: criatividade e inovação. Mas quem conhece sabe que estes dois adjetivos podem não bastar para a cantora. De passagem pelo Rio de Janeiro para o show final da turnê Celebration Tour, que acontece no sábado (4/05) com um público estimado em um milhão e meio de pessoas, Madonna desembarcou com um time que chega a 200 pessoas – e entre eles está Sasha Kasiuha, ucraniano responsável pela criação dos conteúdos visuais da turnê.

    Em uma conversa exclusiva com Vogue Brasil, Sasha revela as inspirações por trás do show e entrega alguns detalhes secretos que remetem ao momentos marcantes da carreira da cantora, e que só os fãs mais atentos irão perceber. Com participação confirmada de Anitta e Pabllo Vittar, o show em Copacabana irá entregar visuais nunca antes vistos em um show deste porte, ao combinar arte com tecnologias inovadoras e inteligência artificial – especialidade de Sasha.

    Artista multidisciplinar

    Apesar de ter conquistado o posto de um dos nomes mais criativos e inovadores na música e nas artes visuais, com parcerias com Honey Dijon, Blackpink e Miley Cyrus, Sasha estudou engenharia química na Ucrânia – país do qual se orgulha. "Como ucraniano, valorizo o trabalho árduo e a dedicação. Em qualquer projeto que eu faça, especialmente quando há uma mensagem envolvida, tenho uma pesquisa completa para entender os problemas e como minha visão artística pode ajudar a quebrar barreiras e padrões”, conta. Foi a paixão por clipes e por cultura pop que ajudaram a lapidar o gosto e olhar do ucraniano, que hoje vive em Nova York.

    A virada veio em 2021, com o lançamento do documentário da turnê Madame X: “Digo que minha carreira realmente começou quando uma pessoa acreditou na minha visão. Essa pessoa foi Nuno Xico, um diretor português que me convidou para trabalhar no documentário da turnê Madame X, da Madonna. Esse foi o início oficial do nosso trabalho juntos.”

    Sasha se considera um artista multidisciplinar, com foco na junção de criatividade e tecnologia – casamento que o ajuda a entregar projetos que buscam maior aproximação do público por meio da emoção. É isso que os fãs em Copacabana poderão ver e sentir, numa história de quatro décadas de música, moda e arte contada em pouco mais duas horas.

    "Estava insatisfeito com a computação gráfica tradicional. Então, trabalhamos com uma tecnologia texto-vídeo que ganha vida de acordo com o clima de cada música. Acredito que essa seja a primeira vez que esse tipo de tecnologia foi usada em uma turnê grande, de um grande artista. Sempre fiquei de olho em novas tecnologias e ferramentas, como a inteligência artificial. Incorporar essas inovações no meu dia a dia foi uma grande mudança: as tecnologias continuam me deixando curioso, ao mesmo tempo em que desafiam os limites da criatividade."

    Sasha conta que os visuais que poderão ser vistos nas performances de "La Isla Bonita" (1986) e "Take a Bow" (1994) foram criadas usando inteligência artificial, com backgrounds de alta resolução (e de grandes proporções!) que enriquecem ainda mais a experiência do show. Na primeira, um clássico do fim dos anos 80, Sasha e o time usaram imagens de água que foram convertidas em nuvens, com animações, movimentos, elementos abstratos e animais. Em "Take a Bow", a arte ganha vida com inspiração no surrealismo.

    "O show do Rio de Janeiro é bem maior do que os que fizemos em arena. E ele também é diferente: fizemos alguns ajustes para acomodar as telas, bem maiores que as usadas até então. É realmente muito especial ver seu trabalho diante de milhões de pessoas. A estrutura segue a original, no conceito da Madonna, mas esse show será ainda maior, com detalhes pensados especialmente para os brasileiros”, conta.

    Um tributo inesquecível

    Um dos pontos altos do show é um tributo às vítimas de AIDS, bloco que emocionou o mundo com a passagem da turnê por diversos países. Mas no Brasil, esse momento deve ser ainda mais especial: criado em parceria com o artista visual Matea Friend, o momento exibe diversas telas com imagens de vítimas da doença – muitas delas amigos pessoais da cantora. "Live to Tell" (1986) conta a história da crise de AIDS, que mudou Madonna pessoalmente. Os rolos de telas mostram diversos amigos de Madonna e personalidades queer que morreram de AIDS ou por complicações causadas pela doença, incluindo o melhor amigo dela, Martin Burgoyne, Christopher Flynn, o dançarino da Blond Ambition Tour, Gabriel Trupin, e ícones como Keith Haring e Freddie Mercury. Essas imagens representam o avanço e a devastação causada pela doença, com a mensagem 'Em memória de todas as luzes que perdemos para a AIDS’”.

    No Brasil, outras personalidades devem ser homenageadas, como Cazuza e Renato Russo, que inclusive fez um cover da música "Cherish" (1989). Os nomes escolhidos, uma colaboração dos fãs brasileiros, também incluem Lauro Corona, Caio Fernando Abreu, Mauro Taubman, Simão Azulay, Claudia Magno e Herbert de Souza, entre outros.

    "Esse projeto é um dos que mais tenho orgulho. Tem um significado de reflexão sobre a devastação causada pela epidemia da AIDS nas comunidades ao redor do mundo. Enquanto a medicina moderna oferece tratamentos para a doença, é crucial lembrar que aproximadamente 650 mil crianças vivem com HIV/AIDS, e que aproximadamente mil crianças nascem infectadas na África diariamente. Esse momento é um poderoso tributo às pessoas afetadas, e uma lembrança fundamental da ação no combate à crise de saúde global”, completa Sasha.

    Inspirações e Easter Eggs

    Ao longo do show, a trajetória de Madonna é lembrada com inspirações nos visuais e easter eggs. Sasha conta que, para ele, “Madonna sempre foi essa artista que realmente ultrapassou barreiras.” Nesta turnê, o ucraniano mergulhou na história da cantora, com referências cruzadas de diferentes vídeos, capas de álbuns e visuais de turnês anteriores. À Vogue, ele conta o que alguns dos momentos reservam no show:

    NY vive

    "Da Times Square de 1978 descendo para o Lower East Side e para os clubes da região, Madonna nunca fugiu da estética punk. Alguns interludes vão levar o público direto para os anos 80, começando por uma danceteria e por um skyline retrô de NY; depois, vem o CBGB em 'Burning Up'' (1983) com o movimento punk e as referências a artistas como Fab 5 Freddy, com easter eggs dos visuais usados na turnê Re-Invention, de 2004. O momento de 'Get Into The Groove' (1985) também lembra a cidade, com referências à capa do single 'Borderline' (1983).”

    Cores e expressões


    "A pintura Andromeda, de Tamara de Lempicka, faz referência ao vídeo de 'Open Your Heart' (1986). Por meio da música, do som e dos dançarinos, os visuais lembram as pinturas andróginas da artista. Essa jornada continua em uma sala de baile reimaginada do Paradise Garage, discoteca do Soho e clube noturno LGBTQIAP+ que operou de 77 a 87. Em 'Holiday' (1983), imagens reimaginadas de cartões de membros do clube também surgem nas telas.”

    Madonna e a religião

    "Um tributo a Prince também pode ser visto, por meio de uma coroa de espinhos com uma aura e uma mensagem da música do cantor, 'I Would Die 4 U' (Eu Morreria por Você). Ela evoca a mensagem de Jesus Cristo para seus fiéis."

    I'm not your lover, I'm not your friend
    I am something that you'll never comprehend
    No need to worry, no need to cry
    I'm your Messiah and you're the reason why

    Não sou seu amor, nem seu amigo

    Sou algo que você nunca vai compreender

    Não se preocupe, não chore

    Sou seu Messias e você é a razão disso

    Amizades na pista de dança

    "'Hung Up' (2005) traz a referência original à caixa de som – o boombox do vídeo de 2005. Instalamos câmeras dentro dos alto-falantes e, no toca-fitas, uma gravação com o escrito 'Hung Up 2005'. Também temos um vídeo tributo a Michael Jackson, que lembra a amizade de Madonna com o cantor. Uma mensagem, escrita à mão por ela, mostra: 'nunca posso dizer adeus'.”

GQ BRASIL

Os bastidores da estreia de uma marca masculina no SPFW

  • Acompanhamos os bastidores do desfile estreia de Renato Ratier na temporada de inverno 2016 durante a semana de moda brasileira

    Vinícius Guidini

    Tem curiosidade de saber o que acontece nos bastidores de um desfile do SPFW? GQ Brasil acompanhou a preparação do desfile de estreia de Renato Ratier na temporada de inverno 2016 do evento e conta, momento a momento, tudo que aconteceu antes e depois da apresentação, da casa do diretor criativo à festa na D.Edge – clube noturno idealizado por ele:

    13h20 – Encontro na casa de Renato Ratier
    O dia começou no apartamento de Renato em Perdizes, São Paulo. "Não estou ansioso, tem que pensar que a vida vai além disso, que minha família está bem. Se você ficar pensando no nervosismo, ele te pega", declarou ele. Antes disso, já tinha tomado um café da manhã reforçado quando acordou, às 10h. A chegada na Bienal, onde acontece o SPFW, estava marcada para às 14h.

    14h – Chegada ao SPFW
    Pontual, Renato se dirigiu ao backstage da sala de desfiles onde cumprimentou suas duas estilistas, Kako Ferraz e Vivi Rivaben. Depois de vestir a roupa para a apresentação, ele revisou os acessórios com a equipe e deu início à gravação dos vídeos que serão transformados em um documentário para TV sobre sua estreia na temporada de moda.

    14h15 – Primeira entrevista
    A primeira equipe de imprensa a conferir a coleção de Renato, cujo desfile estava marcado para às 17h30 da sexta (24), foi a Vogue Brasil. O diretor de criação deu detalhes sobre a apresentação e as peças.

    14h30 – Revisão da cenografia
    Depois da entrevista com a imprensa, Renato conferiu a cenografia com os diretores de desfile: "Vou arrasar nessa passarela, até vão pensar que eu sou um dos modelos! Estou ansioso, mas a felicidade da estreia é maior que a ansiedade", disse ele. A proposta da passarela era resgatar a imagem de um deserto com chão craquelado em preto.

    15h – Passagem de trilha
    Depois de receber o DJ Eduardo Corelli, responsável pela trilha do desfile, Ratier conferiu o resultado em um ensaio prévio na passarela. Na sequência, o diretor atendeu outros veículos da imprensa.

    15h40 – Ensaio da fila
    A menos de duas horas para o desfile, Renato ensaiou a fila com o casting de modelos. A ordem dos diretores da apresentação era clara: "Mantenham a atitude de guerreiro!", uma referência à inspiração da coleção.

    16h10 – Entrevista para a TV
    O diretor criativo concedeu a primeira entrevista do dia para uma emissora de TV. Para o repórter, ele resumiu o desfile que aconteceria em minutos: "Os bastidores são como uma orquestra, muita gente trabalhando e correndo contra o tempo". Nesse meio tempo, Aline Weber, destaque da marca, chegou ao backstage para finalizar a maquiagem com o resto do casting.

    16h30 – Chegada da família
    Ratier recebeu a esposa e um dos filhos no backstage, onde acompanharam toda a preparação da coleção até a hora da apresentação. Na sequência, começaram as trocas de roupa para os ajustes finais do desfile.

    17h – Últimos ajustes
    Renato permaneceu na sala de desfiles enquanto a equipe fazia os últimos ajustes com os modelos. Ratier aproveitou para checar a cenografia e os detalhes finais com a família e a assessoria de imprensa.

    17h20 – Preparação para o desfile
    Ratier cumprimentou os modelos e conferiu os looks de perto. Também aproveitou para discutir a coleção com editores de moda enquanto a última estrela da apresentação chegava: o pastor Nakan, cachorro que também entrou na passarela.

    17h35 – Início da fila
    Era hora de colocar os modelos em fila para o desfile. A emoção começou a aflorar: "Se eu chorar, vocês cortam?!", pediu Ratier. A essa hora ele nem se lembrava de onde tinha colocado o celular.

    18h05 – Desfile
    Com pouco mais de 30 minutos de atraso, uma platéia lotada e ansiosa conferiu a estreia de Ratier nas passarelas. Por um problema na entrada final dos modelos, foi necessário alterar a propostra de encerramento em fila para uma entrada "em gangue", com todos os modelos ao mesmo tempo. Às 17h17 Renato fechou a apresentação agradecendo os convidados.

    17h25 – Os convidados
    Depois de abraçar sua equipe e elogiar o trabalho de todos os envolvidos, Ratier abriu o backstage para convidados, familiares e pessoas da imprensa. Era hora de receber os elogios pela apresentação.

    20h30 – Jantar de comemoração
    Para celebrar o sucesso do desfile, Ratier recebeu um grupo pequeno de amigos e jornalistas no Bossa, restaurante do empreendedor inaugurado em fevereiro. O papo foi da saída de Raf Simons da Dior até os detalhes do desfile, com direito a revisão dos detalhes de todos os looks durante a sobremesa.

    1h20 – A festa continua
    Para terminar a maratona de estreia de Ratier na SPFW, nada melhor que celebrar o desfile na D.Edge, casa noturna do diretor criativo. A festa por lá se estendeu até a manhã de sábado com direito a set de Renato e um grupo animado composto por modelos, jornalistas e amigos da marca.